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Homilia do Superior Geral
Encerramento do Ano de Ação de Graças pela beatificação do Padre Fundador
Inauguração do Ano do Centenário do renascimento e da reforma da Congregação
Imaculada Conceição da SVM, Roma, 8 de dezembro de 2008
A Eucaristia celebrada na solenidade da Imaculada Conceição da SVM, na festa patronal da nossa comunidade, é para nós excecpcional. Hoje, como em nenhum outro dia, sentimo-nos uma comunidade unida com Maria junto a Cristo. Unem-nos vínculos mais fortes que os vínculos do sangue: uma só fé, uma só vocação, o amor fraterno e um objetivo único que nos guia. Unimo-nos espiritualmente com todos os marianos no mundo, envolvendo-os com o nosso amor e a nossa oração e depositando-os no altar juntamente conosco, unindo-nos no único sacrifício de Jesus Cristo.
Com esta Eucaristia queremos bendizer a Deus pelo Seu amor e pela misericórdia que incessantemente tem demonstrado a cada um de nós e a toda a nossa comunidade no decorrer dos mais de três séculos de sua existência. Ontem encerramos o Ano de Ação de Graças pela Beatificação do nosso Fundador. Não cessamos de agradecer por essa beatificação e pelos primeiros frutos desse dom. Acredito que, estimulados pelo Espírito Santo, após mais de 300 anos voltamos aos primórdios da nossa Congregação a fim de extrair e animar aquilo que no eterno plano de Deus é a nossa vida e missão.
Hoje iniciamos o Ano Jubilar do centenário do renascimento e da reforma da nossa Congregação. A milagrosa salvação da nossa comunidade da extinção, promovida pelo beato Jorge, foi certamente a mais forte ingerência de Deus na nossa história até então e uma importante confirmação de que Deus necessita de nós, de que o nosso carisma é necessário à Igreja. Demos graças a Deus por esse dom da Divina Misericórdia e peçamos que também hoje infunda o Seu Espírito em cada um de nós e em toda a Congregação, a fim de que possamos hoje interpretar corretamente o sentido desse dom para nós.
No dia de hoje voltamos o nosso olhar a Maria, escolhida por Deus e cheia de graça. Agradecemos pela maternal proteção que Ela nos proporciona. Contemplamos o mistério da Sua Imaculada Conceição, que fascinou o beato Estanislau e desde o início é o sinal, a força e a alegria da vocação mariana. Que hoje esse mistério se torne para nós o sinal, a força e a alegria. Que se torne a inspiração, a esperança e o caminho da nossa conversão e renovação para o tempo de nosso Jubileu.
O mistério da Imaculada Conceição anuncia antes de tudo o triunfo de Deus sobre o pecado. A humanidade está sujeita à herança do pecado, mas o domínio do mal nunca tem sido pleno. A consciência disso deve ser, primeiramente para nós mesmos, uma fonte de consolo e esperança. De diversas formas lutamos com a experiência do pecado em nossa própria vida, no nosso ambiente, em nossas comunidades e em toda a Congregação. Talvez venha a tentação do desânimo quando contemplamos a miséria humana em nós mesmos, em nossa Congregação. O mistério da Imaculada Conceição nos dá coragem e a garantia de que o poder do amor de Deus é maior que qualquer mal.
Sâo Paulo escreveu: “Por amor [Deus] nos destinou a si como filhos escolhidos por Jesus Cristo, segundo o propósito da Sua vontade, para a glória da majestade da Sua graça, que nos proporcionou no Amado”. Irmãos, hoje, no dia da nossa festa patronal, sintamo-nos profundamente amados por Deus e alegremo-nos com o dom da escolha, de que fala o Apóstolo. Que nada nos afaste dessa alegria e nada a ofusque! Permitamos ser envolvidos pelo amoroso olhar de Cristo. Peçamos com fé que Ele nos mergulhe na Sua graça e encantemo-nos mais uma vez com a beleza da vida a que nos convidou.
A verdade da Imaculada Conceição de Maria lembra-nos que quem nos salvou foi Cristo. A Ele entreguemos hoje toda a nossa miséria e impotência. A Ele entreguemos o hoje e o amanhã da nossa Congregação. Percebamos que antes de cada milagre que Jesus pretendia praticar Ele não esperava boas obras, mas apenas fé e confiança. Ele nos amou antes que fôssemos concebidos no seio de nossas mães e, vendo a nossa vida assinalada pelo pecado, não afasta o Seu amor.
Muitas vezes, na nossa vida espiritual, nós nos concentramos excessivamente nos pecados, próprios ou alheios, naquilo que nos aprisiona. A Imaculada Conceição ensina-nos uma estratégia bem diferente. Em vez de nos concentrarmos demasiadamente no pecado, concentremo-nos no amor de Deus para conosco. Contemplemos o Seu amor. A experiência do amor de Deus permitirá que superemos o nosso pecado. Na vida espiritual, não é tão importante o fato de suficientemente amarmos a Deus e os homens – e é sabido que o fazemos de forma insuficiente –, mas o mais importante é se acreditamos que somos por Ele imerecidamente amados e se ao Seu amor respondemos com a nossa fé confiante, como o fez Maria, dizendo: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”
Hoje, renovando os nossos votos, apresentando-nos com humildade diante da face de Deus, digamos juntamente com Maria as palavras: “Eu sou o Teu servo; faça-se sem mim segundo a Tua palavra!” Pronunciemos essas palavras em nome de toda a nossa comunidade: “Nós somos os Teus servos; faça-se em nós segundo a Tua palavra!” Expressemos com elas o desejo e a prontidão para que se realize em cada um de nós e em toda a nossa Congregação o plano divino neste momento muito especial da nossa história, que é a beatificação do Fundador e o nosso Jubileu.
Caros Irmãos, pronunciando conscientemente esas palavras, expressamos a prontidão para entregar a Deus tudo a que Ele possa convocar a cada um de nós: a uma mudança do estilo de vida, dos nossos planos e projetos, a desistirmos das garantias humanas e a carregarmos a cruz. Sim, isso pode ser doloroso, isso pode pode estar associado à luta, mas, quando cumprimos a vontade de Deus e quando imitamos a Jesus Cristo, é ali que encontramos a vida, a alegria e a paz. Nada pode ser uma reompensa melhor que o próprio Deus.
O mistério da Imaculada Conceição da SVM fornece-nos a chave para a compreensão da obra de ambos os nossos Pais: do beato Estanislau e do beato Jorge. Ambos permitiram envolver-se pela novidade da vida em Cristo, cujo exemplo contemplamos mais plenamente em Maria Imaculada. Nem para o beato Estanislau nem para o beato Jorge a realização de obras exteriores era um objetivo em si mesmo. O objetivo da vida deles era um só – a união com Deus e a difusão do Seu reino. Eles descobriram a vocação para o cumprimento de obras concretas como que a caminho, como um fruto da graça de Deus que neles agia. A total entrega ao Espírito Santo, a permissão para que Ele conduzisse a sua vida resultou em ações concretas de cumprimento da vontade divina, na realização daquelas obras que o próprio Espírito havia planejado. Ao mesmo tempo nenhum deles considerava que estava realizando alguma grande obra, pela qual merecesse da parte de Deus uma gratidão ou uma recompensa especial. A própria vida em união com Deus e a realização das Suas obras já era uma recompensa. Na vida deles, apenas Deus devia ser envolvido de glória, não eles mesmos.
Refletimos sobre os desafios que se nos apresentam neste momento da história da nossa comunidade. A solenidade de hoje e o testemunho de vida dos nossos beatos sugerem-nos que a tarefa mais importante e primordial continua sendo sempre a nossa conversão, ou seja, a abertura do nosso coração à novidade da vida em Jesus Cristo, cujo modelo contemplamos em Maria Imaculada e cujo testemunho vemos em todos os santos da Igreja, inclusive nos nossos beatos. A novidade da vida em Cristo proporciona a capacidade de realizar novas obras ou boas ações, que Deus de antemão preparou para serem por nós executadas. O nosso aprofundamento na vida divina permitirá que reconheçamos tudo aquilo a que Deus nos convoca, e ao mesmo tempo vai nos proporcionar incessantemene a coragem e a generosidade para o cumprimento da Sua vontade.
Talvez seja oportuno que nos peocupemos menos com o futuro da Congregação, com o sucesso das nossas obras, e que nos empenhemos mais por agradar a Deus, e Deus realizará através de nós a obra por Ele prevista.
Concluirei com as palavras do beato Jorge: “Irmãos Caríssimos, temos suficientes razões para confiar em Deus, porquanto revelou-se a nós o poder da direita do Altíssimo. Da mesma forma que a sabedoria e a bondade de Deus, nosso Criador e Senhor, fez nascer e animou esta Congregação, também haverá de preservá-la, guiá-la e propagá-la na perfeição e no Seu serviço... Aprendamos a depositar a nossa confiança não na fartura terrena, não nos homens, não em nós mesmos, n’Aquele que nos fortalece e para quem nada é impossível”. (12 de janeiro de 1924, Carta circular aos coirmãos.)
Jan M. Rokosz MIC
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